sábado, 14 de agosto de 2010

Um ano...

Está para completar um ano sem sua presença física.
Sem seu olhar, sua companhia, suas palavras, ideias e opiniões.

Há exato um ano,vivíamos seus últimos momentos de lucidez.

A lembrança emociona-me ainda. Acho que isso será ainda por muito tempo.

Como fã das artes, principalmente cinema e música, Frank Sinatra foi um de seus ídolos, que ele acompanhou de perto durante todos os seus quase 75 anos.

Em sua homenagem, publico abaixo, uma das músicas preferidas e que traduzem muito de sua personalidade, do seu modo de viver.

My Way é como ele via a vida, como ele enfrentava seus dias, suas alegrias e decepções. Ao seu modo, ele enfrentou sem desistir em nenhum momento sequer, tudo o que a vida lhe propôs.
Do seu jeito especial, ímpar, ele fez o melhor...

For what is a man, what has he got?

If not himself, than he has naugth

To say the things he truly feels

And not the words of one who kneels


My Way foi a sua vida, ao seu modo.


André Lazzarini - 2010/o8/15.

My Way

And now the end is near

And so I face the final curtain

My friend, I'll say it clear

I'll state my case of which I'm certain

I've lived a life that's full

I traveled each and every highway

And more, much more than this

I did it my way

Regrets, I've had a few

But then again, too few to mention

I did what I had to do

And saw it through without exemption

I've planned each charted course

Each careful step along the byway

And more, much more than this

I did it my way

Yes there were times, I'm sure you knew

When I bit off more than I could chew

But through it all when there was doubt

I ate it up and spit it out

I faced it all and I stood tall

And did it my way

I've loved, I've laughed and cried

I've had my fill, my share of losing

And now as tears subside

I find it all so amusing

To think I did all that

And may I say, not in a shy way

Oh no, oh no, not me

I did it my way

For what is a man, what has he got?

If not himself, than he has naugth

To say the things he truly feels

And not the words of one who kneels

The record shows, I took the blows

And did it my way

Frank Sinatra

Um Dia Aprendes

Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. E começa aceitar as suas derrotas com a cabeça erguida e os olhos adiante, com a graça de uma criança e não a tristeza de um adulto.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno de amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair ao meio ao vão. Depois de um tempo aprendes que o sol queima se ficares exposto por muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam... E aceitas que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai magoar-te de vez em quando e tu tens de perdoá-la por isso.

Aprendes que falar pode aliviar as dores emocionais. Descobres que se levam anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la e que você pode fazer coisas num instante, das quais te arrependerás para o resto da vida. Aprendes que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo em longas distâncias. E que o que importa não é o que você tem na vida, mas o que é na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos de mudar os amigos se compreendermos que os amigos mudam, percebes que o teu amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.

Descobre que as pessoas com quem mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa, por isso, sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos. Aprendes que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começas aprender que não deve comparar com os outros, mas com o melhor que você mesmo pode ser. Descobre que leva muito tempo a tornar-te a pessoa que quer e que o tempo é curto. Aprende que não importa aonde já chegou, mas onde está indo. Aprendes que, ou controla os seus atos ou eles te controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são aqueles que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências. Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que te ajuda a levantar. Aprende que a maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou.

Aprendes que há mais dos teus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são tolices, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprende que quando estás com raiva tens o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de seres cruel.

Descobre que só porque alguém não te ama da maneira que quer que te ame, não significa que esse alguém não te ame com tudo que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas não sabem como o demonstrar.

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes tens que aprender a perdoar-se a si mesmo. Aprende que, com a mesma severidade com que julgas, serás em algum momento condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não para que o concerte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, em vez de esperar que alguém lhe traga flores.

E aprendes que realmente podes suportar... que realmente és forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensares que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que tu tens valor diante da vida! As nossas dúvidas são traidoras e fazem-nos perder o bem que poderíamos conquistar se não fosse o medo de tentar.

William Shakespeare

domingo, 18 de abril de 2010

As torções e distorções da sociedade moderna


Dentre os caminhos e descaminhos da sociedade moderna, surgem soluções dadas como “fantásticas” e alardeadas como a “salvação” da sociedade e a tão desejada “solução” de um dos atuais problemas: a violência juvenil. Juvenil, porque começa nesta fase, mas se propaga por todas as idades e todos os setores desta sociedade que esta se (des) construindo. Pasmem: uma escola do interior do Norte do Paraná acredita estar “educando” quando presenteia – materialmente – os alunos que se comportam educadamente. A cada boa atitude do aluno significa um “sim” numa ficha de avaliação individual, que valem pontos e são convertidos em Reais para serem gastos no “Bazar do Comportamento”. Assim, os jovens portando suas “carteiras cheias de reais virtuais” deliciam-se no bazar gastando à vontade em roupas, brinquedos e outros mimos do consumismo.

Ora, isso é educação? Em tempos de Campanha da Fraternidade Ecumênica, enquanto pregamos que não podemos servir a Deus e ao dinheiro exatamente por causa do endeusamento dos valores deste consumismo doentio e do desvirtuamento moral da sociedade, assistimos uma entidade que se diz “educacional” ensinar o avesso: “sejam bonzinhos e educados que a sociedade lhe recompensará com presentes materiais”. Que belo exemplo de educação! Que futuro para estes jovens!

E onde ficaram os valores morais que deviam ser ensinados pelos educadores e pelas famílias, através do exemplo de vida, das regras sociais de comportamento, enfim, da educação propriamente dita? Foram jogados às sarjetas desta sociedade decadente.

Percebem que estes jovens estão aprendendo que seu bom comportamento vale um bem material ou monetário. Só isso! E não estão ensinando-os que o bom comportamento tem um valor moral e é o que rege a boa convivência e mantém a paz na sociedade. Deste modo, crescerão esperando sempre uma recompensa pela sua boa conduta. E, no dado momento em que a sociedade – vil e perversa como está sendo (des) construída – não puder recompensá-los, seus demônios interiores surgirão fortalecidos e vomitarão sua ira sobre a mesma, muito pior do que atualmente acontece.

A inversão dos valores educacionais é perversa. Tal método leva a um caminho pior quando os educadores imaginam que podem despertar valores morais nos jovens “comprando-os” por um preço qualquer, quando o correto seria despertar tais valores morais demonstrando que eles – os valores morais – são quem garante a pacífica convivência social.

Infelizmente eles nãoo fazem por mal: tais “educadores” também são vítimas do processo de deseducação que a nossa sociedade vive atualmente quando perpetua tal raciocínio torcido.

Os valores básicos, os conteúdos morais e a boa conduta civilizada da sociedade estão sendo desacreditados por modismos e resultam em famílias desagregadas, endeusando o dinheiro e materializando o maior bem que temos – a vida – atingindo o ápice total quando, através da pregação do livre aborto, sacrifica-se um ser humano para resguardar o corpo da mulher – o materialismo novamente sobressaindo-se à vida.

Resta-nos mantermo-nos atentos aos desvios de conduta desta sociedade desencaminhada e educar nossos filhos como fizeram conosco nossos pais, agindo corretamente sempre, pois se educa tanto através de exemplos quanto através de palavras. E, além disso, criticar, desaprovar e combater sempre todas estas promiscuidades travestidas de verdades e que estão sendo, sistematicamente, jogados numa mesma cesta, apresentando o podre como novo e moderno e o puro e verdadeiro como ultrapassado.


Publicado na Folha de Londrina - edição de 18/04/2010 - página 02

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sabedoria

Sim, insensatos são todos aqueles homens em que se instalou a ignorância de Deus e que, a partir dos bens visíveis, não foram capazes de descobrir aquele que é, nem, considerando as obras, reconheceram o Artífice. Antes foi o fogo, o vento ou o ar subtil, a abóbada estrelada, ou a água impetuosa, ou os luzeiros do céu que tomaram por deuses, governadores do mundo. Se, fascinados pela sua beleza, os tomaram por deuses, aprendam quão mais belo que tudo é o Senhor, pois foi o próprio autor da beleza que os criou. E se os impressionou a sua força e o seu poder, compreendam quão mais poderoso é aquele que os criou, pois na grandeza e na beleza das criaturas se contempla, por analogia, o seu Criador. Estes, contudo, merecem só uma leve censura porque talvez se extraviem, apenas por buscarem Deus e quererem encontrá-lo. Movendo-se no meio das suas obras, investigam-nas, mas deixam-se seduzir pela aparência, pois são belas as coisas que vêem. De qualquer modo, nem sequer estes são desculpáveis, porque, se tiveram tanta capacidade para poderem perscrutar o universo, como não descobriram, primeiro, o Senhor dessas coisas?
(Livro da Sabedoria 13,1-9)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A Morte é Passagem

“Eu somente passei para o outro lado do Caminho.
Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês, continuarei sendo.
Me deem o nome que vocês sempre me deram, falem comigo como vocês sempre fizeram.
Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas, eu estou vivendo no mundo do Criador.
Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos.
Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.
Que meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra ou tristeza.
A vida significa tudo o que sempre significou, o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora dos seus pensamentos?
Agora estou apenas fora de suas vistas.
Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do Caminho... Você é que aí ficou, siga em frente, a vida continua, linda e bela como sempre foi.”
Santo Agostinho

domingo, 30 de agosto de 2009

Ser Santo

Ser Santo

O que é ser Santo?

Dentre diversos padrões criados para chegar à santificação, acredito em outros também. Ter uma vida honesta, honrar os pais, providenciar para si mesmo uma vida reta e segui-la, constituir uma família e viver por ela, manter princípios morais, educar os filhos em todos os sentidos e, também como parte da educação, ser um exemplo para seus descendentes.

Assim foi meu pai.

Meu pai nos deixou na madrugada do último sábado. Deixou-nos fisicamente... seu corpo não resistiu aos vírus, bactérias que tanto o incomodaram nos últimos meses. Seu organismo lutou intensamente, bravamente até o último instante. Assim com meu pai foi um lutador durante toda a sua vida, seu organismo também o foi. Não desistiu um instante sequer. Não cedeu um milímetro daquilo que ele sempre acreditou e viveu: nem seu corpo, nem sua alma, nem seu espírito. Manteve seus princípios éticos e morais até o último instante de sua vida.

Certamente foi seduzido por inúmeras vezes em sua vida, pela vida fácil, pela soberba, pelo materialismo, por padrões amorais e incorretos. Assim também as bactérias e vírus assediaram-no muitas vezes, mas ele nunca cedeu.

Foi vencido na última batalha dessa grande guerra? Não, certamente que não. As bactérias tomaram seu substrato material, que, ao contrário do que possam pensar, vai intoxicá-las e destruí-las invariavelmente durante os próximos dias. Seu corpo era material, apenas um meio pelo qual seu verdadeiro eu, sua bondosa alma, seu espírito de luz vivera durante os últimos setenta e cinco anos, distribuindo carisma, construindo um caráter exemplarmente inabalável.

Choramos pela perda da presença material, mas alegramo-nos pela sobrevivência espiritual. E ele, indubitavelmente, nos conduzirá ainda pelo resto de nossas vidas. De agora em diante, observando-nos de outro ângulo, e conduzindo-nos sempre que puder, intercedendo ao Criador por nossas vidas, sempre que isso for permitido.

Aqui, ao nosso lado, percebíamos sua presença física. Questionamo-lo inúmeras vezes sobre nossas dúvidas, agonias e ansiedades, e ouvimos seus sábios conselhos, suas orientações infalíveis, seu olhar amoroso, seu carinho disfarçado, sua providencial presença, suas preocupações sobre nossas vidas e nossos destinos.

Agora chegou a hora de seguirmos adiante sozinhos, mas acompanhados. Sozinhos fisicamente, olhando o mundo muito mais atentamente do que o percebíamos antes, e aplicarmos tudo aquilo que ele nos ensinou através de seu exemplo de ser. Teremos a certeza de que ele nunca nos abandonou; ao contrário, estará mais presente do que nunca, conduzindo-nos lá de cima, cuidando para que continuemos a ser como ele, e assim possamos ensinar e educar nossos filhos como ele o fez conosco. Padrões éticos, morais, cristãos, fé, perseverança, alegria, preocupação, providencial, amoroso, carinhoso a seu modo, intelectual, e tantas outras qualificações que o descreviam como o modelo de caminho à perfeição, modelo a seguir para, quando chegar nosso momento, termos também a certeza de que nossa missão terrena se cumpriu e que seguiremos também ao seu encontrou, junto ao Pai Eterno.

Pai, o Sr. fará muita falta. Mas o Sr. também nos preparou para enfrentar essa falta.

Esperamos ter aprendido.

Londrina, 29/08/2009.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Lenda Norueguesa

Conta uma lenda norueguesa que um certo Haakon cuidava de uma ermida. Venerava-se ali um crucifixo muito antio, e os habitantes dos arredores iam até lá para pedir graças. Um dia, impelido por um sentimento generoso, o ermitão quis também fazer um pedido, ajoelhou-se diante da cruz e disse:
- Senhor, quero padecer por Vós. Deixai-me ocupar o vosso lugar nesse crucifixo.
O Senhor abriu os lábios e disse-lhe:
- Meu querido servo, acedo ao seu desejo, mas tem que ser com uma condição.
- Qual, Senhor? É uma condição difícil? Estou disposto a cumpri-la com a Vossa ajuda!
- Olha, aconteça o que acontecer, e veja o que vir, deve guardar silêncio para sempre.
Haakon respondeu:
- Prometo, Senhor!
E fez-se a mudança. Ninguém percebeu a troca. Ninguém reconheceu o ermitão, preso com os pregos na cruz. O Senhor ocupava o lugar de Haakon. E este, por longo tempo cumpriu a promessa, não dizendo nada à ninguém.
Um dia, chegou um rico que, depois de ter orado, esqueceu ali sua bolsa. Haakon viu e ficou calado. Também não disse nada quando um pobre, que veio duas horas depois, se apropriou da bolsa do rico. E também não disse nada quando, pouco depois, um rapaz se postou diante dele para pedir uma graça antes de empreender em uma longa viagem. Mas nesse momento voltou a entrar o rico, em busca de sua bolsa. Não a achando, pensou que o rapaz se havia apossado dela e, irado, disse-lhe:
- Dê-me a bolsa que você roubou!
O jovem, surpreso, replicou:
- Não roubei nenhuma bolsa.
- Não minta, devolva-me imediatamente!
- Repito que não peguei nenhuma bolsa.
Furioso, o rico lançou-se contra ele. Ouviu-se então uma voz forte:
- Pare!
O rico olhou para cima e viu que a imagem lhe falava: era Haakon, que lhe gritava e o censurava pela falsa acusação. Abatido, o rico saiu da ermida. O Jovem saiu também, porque tinha pressa em empreender sua viagem. Quando a ermida ficou vazia, Cristo dirigiu-se ao seu servo e disse-lhe:
- Desça da cruz. Você não serve para ocupar o meu posto. Não soube guardar silêncio.
- Senhor, como podia eu permitir essa injustiça?
Jesus voltou a ocupar a cruz e o ermitão viu-se diante dela. O senhor prossegui:
- Você não sabia que convinha ao rico perder a bolsa, pois levava nela o preço do pecado de uma jovem mulher; o pobre, pelo contrário, tinha necessidade desse dinheiro e fez bem em levá-lo. E quanto ao rapaz que ia ser agredido, as suas feridas tê-lo-iam impedido de realizar a viagem, que para ele se tornou fatal: faz uns minutos, acaba de afunda-se o barco e ele perdeu a vida. Você não sabia nada. Eu sei. Por isso me calo...
Os silêncios de Deus às vezes nos desconcertam. Às vezes, parece que permite coisas ou situações injustas. Mas Ele sabe o que faz e nós não. É preciso manter sempre inabalável a confiança nEle, mesmo que não se entenda. É uma grande ciência aprender a receber as coisas vendo por trás delas a mão de Deus, mesmo que pareçam adversas.
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(CINTRA, Luiz Fernando. Porque mortificar-se? O valor do sacrifício. São Paulo: Quadrante, 2009. P. 41-43)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Decepção

Há trinta anos atrás, vivíamos sob um estado ditador. A democracia ainda era um sonho. Assim como a ditadura estava presente em toda a vida, tudo era ditado, tudo era policiado, tudo era controlado. Não podíamos falar o que quiséssemos, não podiamos atender as nossas vontades; tudo era dirigido, tudo era mandado e obedecido. Os pais tinham a força opressora e a palavra final. Aos filhos, restavam-lhes obedecer. Nas escolas, a mão de ferro dominava: os professores com seus controles, suas ameaças e coagindo os pupilos indefesos. Não conhecíamos ainda o vídeo cassete, mal assistíamos programas ao vivo – a maioria era vídeo tape, a censura escolhia aquilo que podíamos ou não ver. As músicas soavam do toca discos ou dos radinhos a pilha. Quando a saudade batia mandávamos uma carta ou aguardávamos as linhas disponíveis do interurbano. Computador, internet, correio eletrônico... nem pensar!

Mas, nada disso perdurou. Ou quase nada.

A tecnologia modernizou tudo. Ou quase tudo. A democracia chegou, trouxe a liberdade de expressão, a censura caiu, as famílias ficaram mais abertas, as opiniões afloraram e o diálogo triunfou. A televisão modernizou, veio o VCR, e em seguida o DVD que já está indo embora; os radinhos à pilha deram espaço aos aparelhos 3 em 1 e foram miniaturizados para mp3 e ipods; os computadores vieram para ficar, trazendo toda uma vida digital a tona; a internet com seus correios eletrônicos instantâneos diminuíram as distâncias e aproximaram as pessoas.

Mas nem tudo mudou.

Constatar, vinte e cinco anos depois, que o ensino continua medíocre é uma decepção muito grande. O ensino primário, ginasial e colegial que tornaram-se infantil, fundamental e médio até que apresentaram modificações significativas, incorporando conhecimentos e tecnologias, alterando o modo como se ensina as crianças e os jovens. Pelo menos, nas escolas particulares, aquele método tradicional já caiu há anos, dando espaço para a modernidade e novas formas que acompanham o mundo como um todo.

Pena que a universidade não acompanhou. Medíocre como era, mas antes fazia parte de um contexto e assim, por isso mesmo, tinha sua razão de ser assim. Enquanto trocamos e-mails, pesquisamos pela internet, lemos artigos atualíssimos publicados segundos antes de termos conhecimento, assistimos aulas de professores incompetentes, atrasados, mais chegados aos costumes ditatoriais do passado do que a uma possibilidade – ainda que remota – de modenizar-se.

Aqueles professores que utilizam a lista de chamada para manter quorum em suas classes; outros que ameaçam os alunos com o tradicional “isso vai cair na prova”, ou pior: “vocês vão ver só o resultados nas suas notas”... provocando náuseas em quem tem que aturar esses retrógrados, incompetentes e incapazes, que só restam-lhes a ameaça, a coação e a repressão como arma de auto afirmar-se na sua incompetência medíocre.

Não sei qual a saída desse sistema apodrecido. Mas é muito frustrante querer adquirir novos horizontes, novos saberes e procurar a universidade para tal e descobrir que, depois de um quarto de século, o sistema piorou, apodreceu e está largado no campo, para os vermes devorarem até o caroço.

Resta a curiosidade e ser autodidata para procurar o saber em fontes mais modernas. Esquecer a universidade e deixá-la para trás, porque desta que existe, nada mais resta a fazer. Não adianta mudarem os currículos, criarem disciplinas, procurarem novos cursos com nomes atuais, se não mudarem os mestres, aqueles responsáveis pela transmissão dos conhecimentos, mas mestres verdadeiros que o sejam por amor a camisa e não porque almejam sua aposentadoria; não incrementarem com novos métodos de ensino, que tornem o aprender um prazer e não uma forma de coagir e reprimir o aluno; procurar novas tecnologias, investir de verdade no ensino e no saber.

O absurdo dos absurdos é visto na universidade: o Brasil realmente é a terra da pirataria: um xerox copiando títulos inteiros, abertamente, para quem quiser ver e comprar... e os cientistas e doutores que forem formados por esta mesma instituição, chorarão seus direitos autorais nas máquinas xerográficas num ciclo estéril e injusto. Como ensinar ética quando na porta está o arrombo da própria? Como ensinar advogados a combaterem os crimes se a própria instituição os estimula? Como estimular os pensadores quando os próprios mestres corrompem com seu ganha-pão? Como ensinar sociologia, quando a instituição é desumana para com os sociólogos? Como ensinar responsabilidade social quando a irresponsabilidade habita em todos os setores?

É claro e óbvio que existem exceções. E honrosas exceções, pois são os valentes que impedem o apodrecimento total. Meu sincero reconhecimento à esses heróis. Pena que sejam poucos. Valentes e perseverantes, mas ainda poucos... idealistas e persistentes, mas ainda assim... poucos! A luta é eterna... como a batalha do cristão: sabemos que aqui não triunfaremos, pois nosso triunfo está além desse mundo. Ainda assim, não podemos desanimar e nunca desistir de nossas batalhas diárias...

Mais triste ainda é ver que loucos e insanos, os pobres estudantes do Ensino Médioentornam aos montes, descabelando-se num vestibular injusto para, como prêmio de conquistá-lo, receberem um ensino deficiente, uma estrutura gasta e defasada, um sistema precário e mentalidades perdidas no tempo.

Eu, que queria ver a luz dos conhecimentos, novos caminhos e novas esperanças, dentro da universidade, percebo que estou perdendo meu precioso tempo, repetindo uma história que já vivi na minha vida e achei que nunca mais ninguém teria que vivê-la. Pena dos nossos jovens, dos meus filhos que terão que enfrentá-la por pura falta de opção. Quanta mediocridade. Quanto desperdício de inteligência, de oportunidades, de progresso, de vida, de saber e de esperanças...

domingo, 22 de março de 2009

Refletindo sobre o direito ao aborto

O erro mais comum e observado dentre a maioria daqueles que defendem o aborto é a defesa do direito à propriedade do seu corpo, tornando o feto “parte” do seu corpo.

Um braço é parte de um corpo, portanto, um braço é propriedade deste corpo. Assim, se o proprietário decide descartar seu braço, lhe será permitido (embora possa não ser aceito ou não compreendido seus motivos), mas nenhuma culpa lhe é imputada, já que ele é dono e pode fazer e desfazer daquilo que lhe pertence. O braço, por ser parte do todo, não é e nunca será capaz de permanecer vivo ou manter-se vivo fora do seu corpo. Ele pode permanecer utilizável, desde que adequadamente conservado; para que seus tecidos possam ser reutilizados ou reaproveitados. Mas um braço não tem autonomia e nem nunca conseguirá autonomia de sobrevivência, por mais tempo que permaneça junto do seu corpo de origem antes de ser amputado.

Se o indivíduo, proprietário de seu corpo e sua vida, resolve dar cabo da mesma, é seu direito. É livre para fazer e desfazer daquilo que é seu, é de sua propriedade. Não afetando fisicamente seus pares e semelhantes, o direito lhe é conferido em sua totalidade. As conseqüências deste fato afetarão tão e somente o próprio indivíduo. É claro que, havendo envolvimento emocional outros sofrerão. Mas não é disso que tratamos aqui.

Um feto, ao contrário, não lhe pertence. É independente. É um ser vivo que, embora não tenha autonomia durante certo tempo, terá em breve. Desde o momento da união dos gametas, surgiu um ser que conquista uma crescente autonomia a cada dia que passa, até que se tornará independente daqueles que lhe deram a vida. Se assim o é, não podemos considerá-lo uma mera parte de um todo, um apêndice que pode ser disposto ao sabor dos desejos daquele que se acha seu dono – e que, na verdade, apenas é um hospedeiro para que esse novo ser conquiste sua autonomia. Neste momento, quando é apenas um hóspede do corpo em que foi gerado, não pode ser tratado como um simples pedaço de carne que incomoda e que pode ser dispensado. "Estar hóspede" não lhe confere a obrigação de "ser propriedade" de alguém.

Assim dizendo, parece que a frieza e a indiferença habitam nossos raciocínios e pensamentos. Mas o raciocínio tendencioso e parcial da “propriedade” nos empurra para essa ilha, essa idéia de “ser dono” só porque está dentro do seu corpo. É enganoso e capcioso levar as pessoas a pensar desta forma. Há que ser cuidadoso e analisar cada idéia que surge a respeito do assunto, inclusive estar atento aos interesses escusos dessas formas de pensar. “Os filhos vem por meio de vós..., mas não são propriedade vossa”(Kahlil Gibran).

Sobre abortos...

"Os vossos filhos não são vossos filhos,

são filhos e filhas do apelo à própria vida.

Vêm por meio de vós, mas não são propriedade vossa.

Embora estejam convosco,

não vos pertencem.

Vós podeis dar-lhes o vosso amor,

mas não os vossos pensamentos,

porque eles têm os seus próprios pensamentos.

Vós podeis acolher os seus corpos,

mas não as suas almas,

pois as suas suas almas habitam a casa do amanhã,

que vós não podeis visitar

nem mesmo nos vossos sonhos.

Vós podeis fazer esforço para serdes como eles,

mas não tenteis torná-los iguais a vós,

porque a vida não anda para trás

nem se retarda como o ontem.

Vós sois arcos através dos quais

os vossos filhos são projectados como flechas vivas.

Que a sua mira pela mão do Arqueiro

seja para a alegria."

Kahlil Gibran

domingo, 15 de março de 2009

Comodismo – uma arte para fracos, preguiçosos e covardes

É muito mais:

- cômodo separar-se, do que enfrentar a dificuldade do perdão incondicional, retomar suas vidas e reconstruir um relacionamento. Construir já não é fácil; reconstruir a partir de ruínas é muito mais difícil. Mas não é impossível.

- cômodo praticar o sexo sem responsabilidade, principalmente se é homem, e, atualmente também para as mulheres com a facilidade (e até legalidade) do recurso aborto (pílulas do dia seguinte, etc.).

- fácil abortar, pois o feto, indefeso, nada pode em sua defesa e em seu favor. É muito mais fácil escapar da responsabilidade de assumir seus atos, fugindo pela tangente, dizendo que o filho não é seu, que a mulher que deveria ter se cuidado, que a única saída agora é o aborto. No calor do relacionamento (se é que teve algum calor), ninguém pensa em seus atos, ninguém se sente responsável por aquilo que faz em nome do prazer fugaz, instantâneo, da beleza da rapidez e da falta de comprometimento. Se houver alguma conseqüência, encara-se quando ela acontecer, da forma mais fácil e mais inconseqüente de resolvê-la.

Oras, digo a todos vocês:

- poucos são aqueles que têm coragem de assumir uma paternidade ou de encarar uma gravidez em defesa do inocente que foi gerado por ambos. Se ele tivesse uma voz, uma forma de se defender, o que ele diria? “Pai, mãe, me perdoem por ter chegado a momento inoportuno, mas preservem minha vida, pois sou incapaz de fazê-lo sozinho”.

- poucos são aqueles que têm coragem de dizer: eu perdôo suas inconseqüências em nome da promessa que fiz no altar, diante de Deus Pai. Volta para casa, vamos reconstruir nossa vida, pelos nossos filhos, por nossos votos, pelo simples fato de assumirmos integralmente a responsabilidade daquilo que nos comprometemos.

Mas não:

- procura-se sempre o caminho mais curto e mais fácil, doa a quem doer. Nasceu, mata-se, se não dá certo, separo-me. O saldo? Entre mortos e feridos, a destruição da família, a destruição de sonhos, a destruição da sociedade. Tudo em prol do prazer rápido e fácil, do consumismo doentio, transformando vidas e sentimentos em mercadorias banais, a venda ou distribuição em qualquer esquina.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Este video diz tudo...

Tudo aquilo que você sempre quis saber, sempre desconfiou, nunca teve coragem de perguntar, mas vê acontecer diariamente... e não fazemos nada para mudar.
Não fazemos?

http://www.unichem.com.br/videos.php

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Máquinas de camisinhas nas escolas

Eu digo NÃO!
Mais uma vez está comprovado que entregar ao Estado a responsabilidade das obrigações da família é um desastre total. A lição de casa deve ser feitaem casa e pelos próprios pais, e não em outro lugar e nem por outros que não sejam os próprios responsáveis, as mazelas irão se espalhando, plantando inconsequências e confusão em todos os cantos.
Na ausência de quem o faça responsavelmente, sempre haverá quem tome o lugar e o faça da forma que lhe convier. Da mesma forma que, quando a família se omite perante diversas necessidades dos seus filhos, estes por sua vez procuram quem as satisfaça e muitas vezes caem nas garras dos traficantes de diversos produtos: entorpecentes, sexo, e da vida.
Também por esse vácuo familiar, assistimos o Estado assumir responsabilidades da família, quando esta se omitiu nos tempos devidos.Várias questões anteriores à esta - máquinas de camisinhas - deveriam ter sido responsavelmente discutidas nos momentos em que se apresentaram e não o foram. Ficaram perdidas nos discursos de "educadores" e curiosos (mais de "curiosos" do que educadores).
Assim, o Estado, autodenominando-se tutor da juventude, acha por bem pregar que: o sexo deve ser discutido da forma mais superficial possível, valorizando o prazer (pior ainda: o prazer individual e nunca do companheiro(a)) em detrimento de seus nobres objetivos, evitando polemizar a necessidade do casamento, a objetividade da reprodução, justificando-se, para tanto, em sua laicidade - um viés ao avesso; gravidez - que habituou-se acompanhá-la sempre do adjetivo "indesejada" - nunca é pregada como deveria ser: uma felicidade, porque resultou do amor profundo entre duas pessoas e do sexo responsável, e que agora devem sentir-se orgulhosos por terem sob suas responsabilidades uma nova vida que está a caminho. Mas não. Prega-se o avesso: casamento? Em desuso. Família? Muito "custoso". Educar os filhos? As escolas que se virem. Sexo? Quando quiser. Gravidez? Indesejável sempre... para evitar, use camisinha... se não conseguiu, estamos providenciando o aborto legal.
E assim caminhamos a passos largos em direção à completa destruição dos valores pessoais, do amor, da caridade, da família e, sobretudo, da proteção da vida como meta primordial de vida. A vida torna-se uma mercadoria, podendo ser escolhida quando e como deverá ser presente. Camisinhas à rolê nas escolas é um convite à promiscuidade, ao sexo banal, inconsequente e o risco da gravidez irresponsável.
As saídas que o Estado, em sua decadência moral, encontra para os problemas são as mais fáceis e menos custosas: o paternalismo míope das diversas bolsas descompromissadas com a qualificação pessoal e profissional, e as cotas nas universidades na contramão da melhora da qualidade do ensino são dois exemplos do mesmo viés das máquinas de camisinha. Não trarão nenhum benefício para a sociedade; ao contrário, pioram ainda mais a qualidade de vida, na medida que lhes rouba a essência de suas vidas: a defesa da própria vida!
Carta publicada na Folha de Londrina - edição de 13/09/2008 - página 03. (exceto o trecho em itálico, que foi cortado por "falta de espaço".

terça-feira, 19 de agosto de 2008

ABORTO: a quem interessa???

  • Maria José Miranda Pereira
"Certos fatos sobre o aborto precisam ser entendidos: nenhum país já reduziu o crescimento de sua população sem recorrer aoaborto" (Relatório Kissinger, p. 182).
Uma pesquisa da Sensus realizada em abril de 2005 a pedido da Confederação Nacional de Transportes (CNT) revelou que 85% dos brasileiros são contrários à prática do aborto. Mesmo em caso de violência sexual, 49,5% são contrários, enquanto 43,5% são favoráveis e 7% não responderam [1].
A Folha de S. Paulo recentemente mostrou sua admiração pela "queda abissal" (sic) da aprovação pública ao aborto:"Um dos aspectos que mais atraíram a atenção das pessoas ouvidas pela Folha a respeito dos resultados das chamadas ´questões morais´ da pesquisa Datafolha foi a queda abissal no índice de moradores de São Paulo que apóiam a legalização do aborto. Saiu de 43% em 1994, quando a maioria da população se declarava a favor da descriminalização, para 21% em 1997, já em segundo nas opções, para apenas 11% na pesquisa atual... " [2].
Paradoxalmente, estamos vendo parte do governo e de ONGs feministas numa busca frenética da liberação total do aborto. Por iniciativa do governo federal, foi instalada uma Comissão Tripartite para rever a legislação punitiva de tal crime. A Comissão foi composta por três partes: a primeira, abortistas do Poder Executivo; a segunda, abortistas do Poder Legislativo; a terceira, abortistas das ONGs financiadas com muitos dólares "representando" (?) a sociedade civil. Lamentavelmente, a Associação Nacional Mulheres pela Vida não foi convidada. O anteprojeto (ou "proposta normativa") resultante do trabalho de tal Comissão dificilmente poderia ter saído pior.
No dia 27 de setembro de 2005, a secretária especial de políticas para mulheres Nilcéia Freire, diretamente subordinada ao Presidente da República, entregou à Câmara dos Deputados a "proposta normativa" que " estabelece o direito à interrupção voluntária da gravidez, assegura a realização do procedimento no âmbito do sistema único de saúde, determina a sua cobertura pelos planos privados de assistência à saúde e dá outras providências " [3].
Segundo o texto da justificação, " a grande inovação da proposta [...] diz respeito à consagração da interrupção voluntária da gravidez como um direito inalienável de toda mulher [grifo nosso] , prevista no primeiro artigo da proposição ".
Diz o mesmo texto que o anteprojeto " propõe ampla descriminalização do procedimento [grifamos], com exceção daquele provocado contra a vontade da mulher. Dessa forma, revoga os artigos 124 a 128 do Código Penal, exceto o art. 125... "Em outras palavras: o anteprojeto revoga todas as hipóteses de crime de aborto previstas no Código Penal, com apenas duas exceções: quando o aborto é praticado contra a vontade da gestante e quando do aborto resulta lesão corporal ou morte da gestante. De acordo com a proposta, a criança por nascer deixa de ter qualquer proteção penal . Só a gestante é considerada sujeito de direitos.
O artigo 3° estabelece condições para que o aborto seja feito: até doze semanas de gestação (três meses) por simples deliberação da gestante; até vinte semanas de gestação (cinco meses) se a gravidez resultou de crime contra a liberdade sexual (entre os quais, o estupro); até nove meses, se houver "grave risco à saúde da gestante"; também até nove meses em caso de má-formação fetal. As previsões, portanto, são amplíssimas.
E se alguém descumprir essas condições? Por exemplo: se uma gestante de oito meses decidir esquartejar seu bebê simplesmente porque não quer dar à luz, o que acontecerá? Nada. Absolutamente nada. Desde que o aborto seja feito com seu consentimento, nem ela nem o médico responderão criminalmente.
Ou seja: as pouquíssimas restrições impostas pelo artigo 3° na verdade são nulas. Sabedores de que a população repudia com mais veemência o aborto quando feito contra um bebê no final da gestação, querem enganar a sociedade, deixando-a acreditar que o aborto por livre vontade da mãe só poderia ser feito até três meses, quando, em verdade, sua inobservância não trará qualquer sanção penal. Em outras palavras: o anteprojeto libera totalmente o aborto no País.
A quem isso interessa?
É de causar perplexidade o que está no artigo 4°: os planos privados de saúde serão obrigados a cobrir as despesas com aborto. Poderão eles excluir procedimentos obstétricos, mas não poderão excluir "os necessários à interrupção voluntária da gravidez realizada nos termos da lei " (sic).
Pasmem!
Para o governo, o aborto provocado é mais importante que o nascimento!
A morte tem prioridade sobre a vida!
A quem isso interessa?
Mortes maternas
Uma das fraudes mais utilizadas para defender a legalização do aborto é dizer que muitas gestantes morrem por causa de "abortos mal feitos". A solução seria legalizar tal prática, que garantiria às grávidas o acesso ao "aborto seguro". Raciocínio análogo levaria à conclusão de que seria necessário legalizar o roubo, a fim de evitar que ladrões inexperientes, atuando à margem da lei, acabassem morrendo em "roubos mal feitos". Por uma questão de isonomia, todos teriam direito a um "roubo seguro".
Deixando de lado, porém, o mérito de tal argumento pró-aborto, examinemos quantas mulheres morrem a cada ano em decorrência de abortos. Centenas de milhares? Dezenas de milhares? Alguns milhares? Nada disso. Veja-se a tabela abaixo, extraída do Departamento de Informação e Informática do SUS - DATASUS [4]:
Número de mulheres mortas em gravidez que terminou em aborto
Ano
2000 - 128
2001 - 148
2002 - 115
Como se percebe, o número anual de mortes maternas em decorrência do aborto não chega a duzentos! E este número pode ser reduzido a zero se o governo, ao invés de incentivar, combater a prática do aborto.
Uma outra fraude correlata é a afirmação de que, nos países em que o aborto é legal, a morte materna é bem menor do que nos outros, onde ele é proibido.
Ora, "mais de 59% das mortes maternas do mundo ocorrem nos países que têm as leis menos restritivas. Na Índia, por exemplo, onde existe uma legislação que permite o aborto em quase todos os casos desde 1972, é onde mais mortes maternas ocorrem. A cada ano, registram-se cerca de 136.000 casos, equivalentes a 25% do total mundial, que para o ano 2000 se calculou em 529.000" [5].
"Nos países desenvolvidos também se pode ver que não há uma correlação entre a legalidade do aborto e os índices de mortalidade materna. A Rússia, com uma das legislações mais amplas, tem uma taxa de mortalidade materna alta (67 por 100.000 nascidos vivos), seis vezes superior à média.
Em contraste, a Irlanda, onde o aborto é ilegal praticamente em todos os casos, possui uma das taxas de mortalidade materna mais baixas do mundo (5 por 100.000 nascidos vivos), três vezes inferior à do Reino Unido (13 por 100.000 NV) e à dos Estados Unidos (17 por 100.000 NV), países onde o aborto é amplamente permitido e os padrões de saúde são altos" [6].
A quem, portanto, interessa legalizar o aborto?
Para esclarecer o que está por trás de tudo isso, convém que leiamos um documento, hoje não mais confidencial, de 10 de dezembro de 1974, de autoria do então secretário de Estado Henry Kissinger, intitulado National Security Study Memorandum 200 (abreviadamente NSSM 200):
Implications of Worldwide Population Growth for US Security and Overseas Interests. Em bom português: Memorando de Estudo de Segurança Nacional 200: Implicações do Crescimento Populacional Mundial para a Segurança e os Interesses Ultramarinos dos Estados Unidos. O documento, conhecido como Relatório Kissinger, foi entregue pelo Conselho Nacional de Segurança dos Estados Unidos ao presidente americano Gerald Ford. Somente em 1989 a Casa Branca desclassificou o documento, que agora é de domínio público. Nesse relatório afirma-se que o crescimento da população mundial é uma ameaça para os Estados Unidos, e que é preciso controlá-la por todos os meios: anticoncepcionais, esterilização em massa, criação de mentalidade contra a família numerosa, investimento maciço de milhões de dólares em todo o mundo.
Henry Kissinger percebeu o que há quatro milênios o Faraó do Egito já percebera: a população é fator de poder. Seu simples crescimento numérico já é assustador: "Eis que o povo dos filhos de Israel tornou-se mais numeroso e mais poderoso do que nós. Vinde, tomemos sábias medidas para impedir que ele cresça´. [...]. Então o Faraó ordenou a todo o seu povo: ´Jogai no Rio [o Nilo] todo menino que nascer. Mas deixai viver as meninas´ " [7].
Para tentar impedir o crescimento demográfico dos países pobres, mantendo-os sob o domínio econômico e político dos países desenvolvidos, já se realizaram várias Conferências Mundiais: em Bucareste, Romênia (1974), na cidade do México (1984) e no Cairo (Egito, a terra do Faraó!) em 1994.
O Relatório Kissinger concentra seu plano de controle demográfico em treze países-chave, entre os quais, o Brasil:" A assistência para o controle populacional deve ser empregada principalmente nos países em desenvolvimento de maior e mais rápido crescimento onde os EUA têm interesses políticos e estratégicos especiais. Estes países são: Índia, Bangladesh, Paquistão, Nigéria, México, Indonésia, Brasil , Filipinas, Tailândia, Egito, Turquia, Etiópia e Colômbia " [8].
O disfarce do controle demográfico foi cuidadosamente planejado:" Os EUA podem ajudar a diminuir as acusações de motivação imperialista por trás do seu apoio aos programas populacionais declarando reiteradamente que tal apoio vem da preocupação que os EUA têm com:
a) o direito de cada casal escolher com liberdade e responsabilidade o número e o espaçamento de seus filhos e o direito de eles terem informações, educações e meios para realizar isso; e
b) o desenvolvimento social e econômico fundamental dos países pobres nos quais o rápido crescimento populacional é uma das causas e consequência da pobreza generalizada " [9].
É forçoso reconhecer que a afirmação repetida de tais inverdades acabou penetrando nas mentes brasileiras, que não enxergam a torpe motivação imperialista das políticas antinatalistas. A instrumentalização das mulheres também está prevista no Relatório Kissinger, motivo pelo qual os grupos feministas são sobejamente financiados por instituições de controle demográfico:" A condição e a utilização das mulheres nas sociedades dos países subdesenvolvidos são de extrema importância na redução do tamanho da família. Para as mulheres, o emprego fora do lar oferece uma alternativa para o casamento e maternidade precoces, e incentiva a mulher a ter menos filhos após o casamento... As pesquisas mostram que a redução da fertilidade está relacionada com o trabalho da mulher fora do lar... " [10].
Na Conferência de Pequim (ou Beijing) sobre a Mulher, de 1995, investiu-se enormemente, em nível internacional, para compelir os países a legalizarem o aborto, reconhecendo-o como um "direito da mulher". De fato, o Relatório Kissinger considera o aborto como crucial para o controle demográfico. Eis suas palavras textuais:" Certos fatos sobre o aborto precisam ser entendidos: nenhum país já reduziu o crescimento de sua população sem recorrer ao aborto " [11].
Em Brasília, atua um eficiente "lobby" pró-aborto chamado CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria). Essa ONG monitora cuidadosamente as proposições legislativas do Congresso Nacional e está sempre alerta para as estratégias mais favoráveis para a aprovação de projetos pró-aborto. Vejamos o que o CFEMEA diz de si mesmo:" Desde 1992, o Centro Feminista desenvolve o Programa Direitos da Mulher na Lei e na Vida, [...]. O Programa assumiu a feição de Implementação das Plataformas de Beijing´95 e Cairo´94 no Brasil em 1995. Para realizar este trabalho, o CFEMEA conta com o apoio de organizações da cooperação internacional " [12] (grifo nosso).
As organizações da cooperação internacional que financiam o CFEMEA - e também vários outros grupos pró-aborto - são, entre outras, a Fundação Ford, a Fundação Mac Arthur, o Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP) e o Fundo das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM). Isso explica porque as feministas, embora em número reduzidíssimo, conseguem tanto espaço nos meios de comunicação social, dando a entender que representam o pensamento "da mulher".
O imenso empenho do governo em favorecer o aborto pode ser explicado, em parte, pela submissão aos organismos multilaterais de crédito, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. De fato, tais instituições financeiras "condicionam toda ajuda econômica externa ao cumprimento de metas demográficas pautadas em cada empréstimo" [13].
Está em julgamento perante o Supremo Tribunal Federal a famosa Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental n. 54 (ADPF 54), que pretende que a Suprema Corte declare, com eficácia contra todos e efeito vinculante, que o aborto de bebês anencéfalos não constitui aborto, mas mera "antecipação terapêutica de parto" (ATP, na linguagem dos abortistas). Convém lembrar que, em tal ação, o Instituto ANIS, uma ONG pró-aborto muito atuante, já na petição inicial, oferece-se para ser admitido no feito como " amicus curiae ". Por coincidência, o ANIS [14], dirigido pela antropóloga Débora Diniz, é financiado pelas Fundações Ford e Mac Arthur, que também financiam o CFEMEA.
O plano de se obter a liberação do aborto eugênico (apelidado, eufemisticamente, de ATP) por via judicial não é novo. Periodicamente o Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP) publica um relatório ("inventory") acerca dos projetos de população ("population projects") em todo o mundo, Na edição de 1996, na seção relativa ao Brasil, tal documento relatava uma doação da Fundação Mac Arthur de US$ 72.000 para " promover a discussão e demonstrar, com base em julgamentos anteriores, que se pode obter decisão da Justiça para interromper a gravidez no caso de sérias anomalias do feto. Duração: três anos. 1996-1999 " [15].
É impossível, nesse curto espaço, enunciar todas as estratégias e desmascarar todas as fraudes empregadas para obter o domínio político de nosso país, impedindo que o Brasil gere brasileiros. Aos interessados em aprofundar o tema, recomendo o excelente livro do jurista argentino Jorge Scala, intitulado "IPPF: a multinacional da morte", recentemente traduzido para o português. A IPPF (Federação Internacional de Planejamento familiar) é a maior rede privada de controle de natalidade, com sede em Londres e filiais espalhadas em cerca de 180 países, entre os quais o Brasil, cuja filial chama-se BEMFAM. A IPPF dispõe no Brasil de um braço legislativo chamado Grupo Parlamentar de Estudos em População de Desenvolvimento (GPEPD), um poderoso - e bem financiado - lobby composto de parlamentares encarregados de transformar em lei os planos antinatalistas.
De lege ferenda
Na qualidade de mulher e de promotora de justiça, constato que, de todos os crimes contra a vida, o aborto é o mais paradoxal, o mais covarde de todos os assassinatos.
Os meios empregados são insidiosos ou cruéis , incluindo envenenamento, tortura ou asfixia (art. 121, §2°, III, CP). O ofendido sempre é absolutamente indefeso (art, 121, §2°, IV, CP). É praticado contra um descendente (art. 61, II, e, CP), contra uma criança (art. 61, II, h, CP) e, muitas vezes, por um médico que tem por ofício o dever de defender a vida (art. 61, II, g, CP). No entanto, a pena é ridiculamente pequena. Tão pequena que o autor pode beneficiar-se da suspensão condicional do processo (art. 89 da Lei 9099/1995). Embora o aborto seja a violação do mais precioso bem jurídico - a vida - praticado contra o mais inocente e indefeso dos entes humanos - a criança por nascer - ele não foi até hoje colocado na lista dos crimes considerados hediondos (Lei 8072/1990).
Se as feministas, instruídas por seus financiadores, têm sua "proposta normativa" para a revisão da lei penal do aborto, eu também tenho a minha. É uma sugestão simples que, se acolhida, colocará o Brasil na vanguarda da defesa dos direitos humanos:
Os artigos que incriminam o aborto (124 a 128) poderiam todos ser excluídos do Código Penal sem nenhum prejuízo para a tutela do nascituro, contanto que o caput do artigo 121 sofresse uma ligeira alteração:
Art. 121- Matar alguém, fora ou dentro do organismo materno .Assim haveria total equiparação entre nascidos e nascituros quanto à violação do direito à vida, acabando-se, de uma vez por todas, com qualquer forma de preconceito de lugar (dentro ou fora do organismo materno). Essa nova redação incriminaria também quem concorresse, por ação ou omissão, para a morte do bebê. A modalidade culposa do aborto seria também punível, admitindo-se, porém, o perdão judicial (art. 121, §5°, CP). Obviamente qualquer aborto doloso seria, então, homicídio qualificado, o que desestimularia os matadores de criancinhas a abrir o lucrativo negócio de uma clínica de abortos. O que vem ocorrendo, entretanto, é uma extrema eficiência das estratégias dos aguerridos lutadores pelo "direito" ao aborto, que tão bem dissimulam o verdadeiro propósito, propagandeando a "nobre intenção de ajudar a mulher".


Notas
Disponível em <>DÁVILA, Sérgio. MANIR, Mônica. Posições extremadas sobre aborto e maconha surpreendem estudiosos. Folha de S. Paulo. São Paulo, 25 jan. 2004, Folha Especial.
A íntegra do anteprojeto está disponível em <>
Acessível a qualquer internauta em <>
Observatorio Regional para la Mujer de América Latina y el Caribe (ORMALC). Falsas creencias sobre el aborto y su relación con la salud de la mujer. Septiembre 2005. p. 3. Tradução nossa. Disponível em <>Idem.
Êxodo 1,8-10.22.
NSSM 200, Implications of Worldwide Population Growth for US Security and Overseas Interests, páginas 14 e 15, parágrafo 30. Tradução nossa.
NSSM 200, p. 115. Tradução nossa.
NSSM 200, p. 151. Tradução nossa.
NSSM 200, p. 182. Tradução nossa.
Ver <>
SCALA, Jorge. IPPF: a multinacional da morte. Anápolis: Múltipla Gráfica, 2004. p.16.
Ver <>
Fonte oficial: FNUAP - Inventory of Population Projects in Developing Countries Around the World – 1996. Tradução nossa.


Maria José Miranda Pereira
promotora de Justiça do Tribunal do Júri de Brasília (DF), membro da Associação Nacional Mulheres pela Vida
Publicado no Portal da Família em 23/08/2006
Original em: http://culturadavida.blogspot.com/2008/08/aborto-quem-interessa.html